Será que preciso procurar um neuropsicólogo?

Esquecer compromissos com frequência, perceber dificuldades para manter a atenção, acompanhar o desempenho escolar de uma criança que parece não avançar como esperado ou notar mudanças na memória de alguém próximo são situações que podem despertar preocupação.

Diante dessas dificuldades, é comum surgir a dúvida: será que é necessário procurar um neuropsicólogo?

Nem toda dificuldade de atenção, memória, aprendizagem ou organização significa necessariamente a presença de um transtorno. O modo como funcionamos pode ser influenciado por diferentes fatores, como o momento de vida, o sono, aspectos emocionais, condições de saúde, experiências vividas e características do próprio desenvolvimento.

Por isso, talvez uma pergunta importante não seja apenas “existe algum diagnóstico?”, mas também: “o que pode estar acontecendo e o que precisamos compreender melhor?”

É justamente nesse processo de investigação que a avaliação neuropsicológica pode contribuir. Por meio de entrevistas, observação clínica, instrumentos e procedimentos adequados à questão investigada e análise das informações obtidas ao longo do processo, busca-se compreender diferentes aspectos do funcionamento da pessoa e relacioná-los à sua história, às dificuldades percebidas e ao contexto em que elas aparecem.

Mais do que procurar um nome para uma dificuldade, avaliar pode ajudar a construir uma compreensão mais ampla sobre como aquela pessoa funciona, quais dificuldades estão presentes e quais recursos ela possui.

Quando uma avaliação neuropsicológica pode ser indicada?

Não existe uma única situação que determine a necessidade de uma avaliação neuropsicológica. Em geral, ela pode ser considerada quando existem dúvidas sobre o funcionamento cognitivo, comportamental ou sobre aspectos do desenvolvimento que precisam ser investigadas de maneira mais aprofundada.

Na infância e na adolescência, por exemplo, podem surgir preocupações relacionadas à aprendizagem, atenção, memória, linguagem, organização, desenvolvimento ou comportamento. Algumas vezes, essas dificuldades são percebidas inicialmente pela família; em outras, aparecem na escola ou são observadas por profissionais que acompanham a criança ou o adolescente.

Mas uma dificuldade escolar, por exemplo, não explica sozinha o que está acontecendo.

Uma criança pode apresentar queda no rendimento por diferentes razões. Pode haver dificuldades específicas de aprendizagem ou questões relacionadas à atenção e às funções executivas, mas também podem estar envolvidos aspectos emocionais, mudanças importantes na vida, condições de saúde, sono, características do ambiente escolar, oportunidades de aprendizagem ou outros fatores.

Por isso, investigar significa procurar compreender como essas diferentes informações se relacionam, e não apenas verificar se determinados sintomas estão presentes.

Na vida adulta, a procura também pode acontecer diante de dificuldades persistentes de atenção, memória, planejamento ou organização que interferem no estudo, no trabalho, nas relações ou nas atividades cotidianas. Em alguns casos, a pessoa convive com essas dificuldades há muitos anos e começa a questionar por que determinadas tarefas parecem exigir um esforço tão grande. Em outros, percebe mudanças em relação à maneira como funcionava anteriormente.

No envelhecimento, mudanças na memória e em outras habilidades cognitivas podem despertar dúvidas tanto na própria pessoa quanto em seus familiares. Envelhecer envolve transformações, mas é importante investigar quando determinadas mudanças são mais intensas, progressivas ou começam a comprometer a autonomia e a rotina.

A avaliação também pode ser útil após acontecimentos ou condições que possam repercutir sobre o funcionamento cognitivo, como algumas doenças neurológicas, traumatismos cranioencefálicos ou acidente vascular cerebral (AVC).

Em qualquer uma dessas situações, a pergunta não é apenas “qual dificuldade está aparecendo?”, mas também:

Quando ela começou? Em quais situações aparece? Quanto interfere na vida cotidiana? Sempre foi assim ou houve uma mudança? Existem outros fatores que podem estar contribuindo? E quais capacidades permanecem preservadas?

Essas perguntas ajudam a transformar uma queixa inicial em algo que possa ser compreendido com maior profundidade.

O que, afinal, é avaliado?

Quando falamos em avaliação neuropsicológica, é comum pensar imediatamente em memória ou atenção. Essas funções realmente podem fazer parte da investigação, mas o processo é mais amplo.

Dependendo da pergunta que motivou a avaliação, podem ser investigados aspectos como atenção, memória, linguagem, raciocínio, aprendizagem, habilidades visuoespaciais e funções executivas — estas últimas relacionadas, entre outras capacidades, ao planejamento, à organização, ao controle de impulsos, à flexibilidade para lidar com mudanças e à capacidade de acompanhar e ajustar o próprio comportamento.

Uma avaliação não precisa investigar todas essas funções da mesma maneira. A escolha dos procedimentos deve estar relacionada à demanda, à história da pessoa e às hipóteses que precisam ser investigadas.

E conhecer o desempenho em cada uma dessas funções, isoladamente, não é suficiente.

Imagine, por exemplo, uma pessoa que relata que “não consegue se concentrar”. Essa mesma queixa pode aparecer de maneiras diferentes e estar relacionada a fatores também diferentes. É importante compreender quando a dificuldade acontece, há quanto tempo está presente, em quais atividades se torna mais evidente e o que mais está acontecendo na vida dessa pessoa.

O mesmo vale para alguém que relata “problemas de memória”. É diferente esquecer ocasionalmente uma informação, ter dificuldade para aprender algo novo, perder compromissos por uma falha de organização ou perceber uma mudança importante em relação ao próprio funcionamento anterior.

É por isso que a avaliação não se resume ao resultado de um teste.

Os instrumentos utilizados oferecem informações importantes, mas seus resultados precisam ser analisados em conjunto com a história da pessoa, sua etapa de desenvolvimento, contexto familiar, escolar ou profissional, condições de saúde, aspectos emocionais e comportamentais e a própria queixa que deu origem à investigação.

Além das dificuldades, também é importante identificar aquilo que está preservado. Uma pessoa pode apresentar maior dificuldade em determinada função e, ao mesmo tempo, contar com outras habilidades que funcionam como recursos para lidar com as demandas da vida cotidiana.

Ao reunir essas informações, começa a ser possível construir um perfil de funcionamento mais individualizado — não apenas apontando onde existem dificuldades, mas procurando compreender como aquela pessoa aprende, organiza informações, resolve problemas, responde às demandas e utiliza os recursos que possui.

Avaliação neuropsicológica é o mesmo que buscar um diagnóstico?

Essa é uma dúvida importante, principalmente porque muitas pessoas chegam à avaliação já com alguma hipótese: TDAH, transtorno do espectro autista (TEA), transtornos específicos da aprendizagem, alterações cognitivas relacionadas a condições neurológicas, entre outras possibilidades.

A avaliação neuropsicológica pode, sim, fazer parte de uma investigação diagnóstica. Mas isso não significa que toda pessoa que realiza uma avaliação receberá um diagnóstico — nem que o processo deva começar pela tentativa de confirmar uma hipótese previamente escolhida.

Quando alguém chega dizendo “acho que tenho TDAH” ou quando uma família procura ajuda porque ouviu que uma criança “pode ter dislexia”, essa informação é relevante e merece ser considerada. Ao mesmo tempo, é necessário manter aberta a possibilidade de que as dificuldades observadas tenham outras explicações ou resultem da combinação de diferentes fatores.

Isso acontece porque um mesmo comportamento pode aparecer em condições diferentes — e condições semelhantes podem se manifestar de maneiras diferentes em cada pessoa.

Dificuldades de concentração, por exemplo, podem estar presentes no TDAH, mas também podem aparecer em diferentes condições clínicas e emocionais ou estar relacionadas ao sono, ao uso de determinadas substâncias ou medicamentos e ao momento de vida da pessoa.

Da mesma forma, uma dificuldade escolar pode exigir que sejam consideradas tanto habilidades cognitivas e acadêmicas quanto aspectos emocionais, pedagógicos, sociais e do desenvolvimento.

É nesse ponto que a investigação cuidadosa se torna especialmente importante.

Em vez de partir da ideia de que determinado diagnóstico precisa ser confirmado, procura-se reunir informações que permitam compreender quais hipóteses são compatíveis com o conjunto dos achados, quais precisam ser reconsideradas e que outras explicações devem ser investigadas.

Em alguns casos, esse processo fornece elementos importantes para estabelecer ou esclarecer um diagnóstico. Em outros, os resultados podem indicar que as dificuldades encontradas não sustentam a hipótese inicialmente considerada ou que ainda são necessárias informações, acompanhamento ou avaliações complementares.

E mesmo quando há um diagnóstico, o trabalho não termina no nome atribuído à condição.

Duas pessoas com o mesmo diagnóstico não necessariamente apresentam as mesmas dificuldades, os mesmos recursos ou as mesmas necessidades. Conhecer o perfil individual pode ajudar a compreender como aquela condição se manifesta naquela pessoa, quais repercussões produz em sua vida e quais formas de cuidado, acompanhamento ou adaptação podem ser mais adequadas.

Por isso, talvez seja mais útil pensar no diagnóstico não como o ponto final da avaliação, mas, quando pertinente, como uma parte de uma compreensão mais ampla sobre a pessoa.

O que acontece depois da avaliação?

Uma avaliação neuropsicológica não termina simplesmente com uma lista de resultados ou com a entrega de um documento.

Ao final do processo, as informações obtidas precisam ser integradas e discutidas de maneira que façam sentido diante da pergunta que motivou a avaliação. A devolutiva é um momento importante porque permite conversar sobre o que foi observado, esclarecer dúvidas e compreender tanto as dificuldades identificadas quanto as capacidades preservadas.

A partir dessa compreensão, podem ser discutidas orientações e, quando necessário, possíveis encaminhamentos.

Dependendo de cada caso, os resultados podem contribuir para o planejamento de intervenções psicológicas, médicas, educacionais ou de reabilitação, além de auxiliar na construção de estratégias para a rotina, os estudos, o trabalho ou outros contextos da vida.

Na infância e na adolescência, algumas informações podem ajudar a família e a escola a compreender melhor determinadas dificuldades e pensar em formas mais adequadas de oferecer suporte.

Na vida adulta e no envelhecimento, os resultados também podem auxiliar na identificação de estratégias, adaptações ou acompanhamentos que façam sentido para as necessidades encontradas.

Isso não significa que a avaliação fornecerá uma resposta pronta para todas as dificuldades.

Em alguns casos, ela esclarece uma questão importante. Em outros, ajuda a formular novas perguntas, indica a necessidade de acompanhamento ao longo do tempo ou mostra que outros profissionais e áreas de conhecimento precisam participar da investigação.

O objetivo é que as informações produzidas durante o processo possam contribuir para decisões mais fundamentadas sobre os próximos passos do cuidado.

Então, quando procurar um neuropsicólogo?

Talvez você tenha chegado até este texto esperando encontrar uma lista capaz de responder objetivamente se precisa ou não de uma avaliação.

Mas essa decisão nem sempre pode ser tomada a partir de um sintoma isolado.

Se uma dificuldade tem sido persistente, provoca sofrimento, interfere na aprendizagem, no trabalho, na autonomia, nas relações ou nas atividades da vida cotidiana, ou se existem dúvidas importantes sobre o desenvolvimento ou sobre mudanças no funcionamento cognitivo, pode ser pertinente conversar com um profissional e avaliar se uma investigação neuropsicológica é indicada.

Essa procura também pode acontecer por orientação de profissionais que já acompanham a pessoa, como psicólogos, médicos ou outros profissionais da saúde e da educação, dependendo da situação.

Procurar uma avaliação não significa partir do pressuposto de que existe necessariamente um transtorno.

Pode significar reconhecer que há uma pergunta que ainda precisa ser melhor compreendida.

Ao longo deste texto, começamos com a pergunta “será que preciso procurar um neuropsicólogo?”. Talvez não exista uma resposta única que sirva para todas as pessoas. Mas há algumas perguntas que podem ajudar a pensar sobre isso:

O que está causando preocupação? Há quanto tempo isso acontece? Em quais situações a dificuldade aparece? Quanto ela interfere na vida cotidiana? Houve alguma mudança? O que já foi tentado? E o que ainda precisa ser compreendido?

Às vezes, o primeiro passo não é encontrar imediatamente uma resposta, mas formular melhor a pergunta.

E é a partir de uma investigação cuidadosa, que considere a pessoa para além de suas dificuldades, que novos caminhos de compreensão e cuidado podem começar a ser construídos.

Referências

Conselho Federal de Psicologia. Neuropsicologia: Ciência e Profissão.

Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 31/2022 — estabelece diretrizes para a realização de Avaliação Psicológica no exercício profissional da psicóloga e do psicólogo e regulamenta o Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI).

Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 06/2019 — institui regras para a elaboração de documentos escritos produzidos pela psicóloga e pelo psicólogo no exercício profissional.

Organização Mundial da Saúde. CID-11 — Classificação Internacional de Doenças, 11ª Revisão.